As mulheres brasileiras seguem convivendo com a violência diariamente. Para se ter uma ideia, 54% daquelas que já se relacionam com homens, afirmam ter sofrido algum tipo de violência, conforme a pesquisa “20 anos da Lei Maria da Pena: percepção da sociedade brasileira”, sendo que apenas 11% deles reconhecem ter cometido algum tipo de agressão. O levantamento é dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, em parceria com a Uber, visando entendimento sobre os efeitos e desafios da “Lei Maria da Penha”.
A campanha “Agosto Lilás” visa conscientizar a população pelo fim da brutalidade e exigir mecanismos de proteção para as vítimas. A agressão é percebida de várias formas – física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial. O tipo psicológico acabou se mostrando o mais frequente, atingindo 42% das mulheres participantes, seguida da violência física (25%), moral (19%), sexual (10%) e patrimonial (9%).
Outro levantamento, feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontou que o crescimento do crime de caráter psicológico subiu 16,9%, se comparado ao ano anterior, com 60.830 ocorrências. Os números representam 55,6 registros a cada cem mil mulheres, mas podem ser ainda maiores, pois a estimativa considera apenas casos denunciados.
A investigação ainda revelou que o avanço dessa infração segue outros indicadores, relacionados à opressão doméstica e de gênero, pois o Brasil também registrou 132.025 casos de descumprimento de medidas protetivas de urgência com um crescimento de 16,7%, no último ano, em relação à 2024 – e alta de 0,5% nas ocorrências de ameaça.
O ano de 2025 ficou marcado como aquele com o maior número de feminicídios, pelo quarto ano seguido no Brasil. Os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública destacam 1.470 registros, contra 535, em 2015, um crescimento de 316%. Minas Gerais foi o segundo estado com o maior número de ocorrências (139), atrás apenas de São Paulo (233).
Para a PHD em neurociências, psicanalista e psicopedagoga, Ângela Mathylde Soares, a situação é bastante alarmante, sendo muito desafiador o processo de reversão. Afinal, a Lei Maria da Penha completa 20 anos e, apesar de contribuir para a segurança de milhares de brasileiras, não está sendo suficiente para diminuir a quantidade de agressões. Das participantes da pesquisa, 80% afirmaram que a legislação funciona melhor na teoria, enquanto 82% delas a consideram insuficiente.
A conscientização deve ser intensificada para reverter essa realidade e não apenas durante o mês lilás. A discussão requer inserção nos currículos escolares, empresas, instituições públicas, órgãos governamentais e outros ambientes profissionais. Inclusive, mais políticas públicas devem ser implementadas e endurecimento das penas para esses crimes, assim como intensificação da fiscalização para aqueles sob medida protetiva.
As forças de segurança devem ser competentes e cumprir seu papel. As mulheres podem buscar ajuda através dos telefones 180 e 190, na Delegacia da Mulher e em iniciativas de acolhimento locais. Elas não devem se calar para salvar seu bem mais precioso: a vida. Afinal, como diz o trecho do poema “Mulher” no livro “A leveza da vida em versos”, escrito pela diamantinense Beth Guedes:
“Homens ofertam flores,
Outros destroem sonhos.
Protetiva, a Maria da Penha
Abraça decepção e dor.”
Foto: Magnific
