Os depoimentos colhidos nesta segunda-feira (9) marcaram o 5º dia de audiências da fase de instrução do processo criminal que investiga o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Durante a sessão, sobreviventes e moradores da região atingida relataram experiências vividas no momento do desastre e as consequências deixadas pela tragédia que provocou a morte de 272 pessoas.
Entre os depoentes esteve Leandro Borges Cândido, que na época trabalhava no carregamento de vagões de minério nas minas de Jangada e Córrego do Feijão. Ele afirmou que havia participado de treinamentos e simulados voltados para situações de rompimento de barragens. No entanto, segundo ele, a sirene de alerta não foi acionada quando ocorreu o desastre. Leandro relatou ainda que após o episódio, ele afirmou que recebeu apenas um plano de saúde da Vale como forma de assistência, benefício que já não possui mais. O sobrevivente também comentou sobre o impacto emocional provocado na cidade onde vive.
Outro relato foi apresentado por Elias de Jesus Nunes, que trabalhava como operador mantenedor de saneamento. Ele contou que havia deixado o refeitório para realizar um serviço nas proximidades da barragem quando ouviu um forte estrondo e percebeu o avanço da lama. Elias afirmou que chegou a parar o veículo, ligar o pisca-alerta e começou a rezar. A lama atingiu a caminhonete e a empurrou, mas ele conseguiu sair do carro e ainda ajudou um operador a deixar uma máquina.
Durante a audiência também foi ouvida a agricultora Soraia Aparecida Campos. Ela contou que perdeu sua produção agrícola após o rompimento da barragem. Segundo o depoimento, ela fazia parte de uma comunidade formada por dez famílias que viviam da agricultura na região. Soraia afirmou que 42 corpos foram encontrados na horta próxima à casa onde morava. Ela também declarou que nunca foi procurada pela Vale para receber informações sobre possíveis riscos relacionados à barragem.
O último depoimento do dia foi do sobrevivente Jefferson Custódio Santos Vieira. Na época da tragédia, ele era estudante e perdeu a avó e uma tia, que trabalhavam em uma pousada atingida pela lama. Jefferson contou que ouviu um barulho semelhante ao de uma queda de energia e tentou entrar em contato com familiares antes de saber que a barragem havia rompido. Ao tentar chegar à região do Córrego do Feijão, ele relatou ter encontrado um cenário de destruição. “Meu tio me ligou e falava ‘acabou tudo, não tem mais nada aqui’”, disse.
As audiências fazem parte da fase de instrução do processo criminal, etapa em que são reunidas provas e colhidos depoimentos de testemunhas e sobreviventes antes das próximas decisões judiciais relacionadas ao caso que envolve a Vale, Tüv Süd e mais 15 réus.
Foto: TRF-6
